LULA: não vou respeitar a decisão da Justiça, irei ganhar e governar

Um dia depois de ser condenado pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) a 12 anos e um mês de prisão, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que não respeitará a decisão da Justiça. Em ato político que aprovou sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto, nesta quinta-feira, Lula conclamou os militantes a uma ofensiva nas ruas para defendê-lo e pregou o enfrentamento político.



“Esse ser humano simpático que está falando com vocês não tem nenhuma razão para respeitar a decisão de ontem”, afirmou o ex-presidente, em reunião da Executiva Nacional do PT. “Quando as pessoas se comportam como juízes, sempre respeitei , mas quando se comportam como dirigentes de partido político, contando inverdades, realmente não posso respeitar. Senão perderei o respeito da minha neta de 6 meses, dos meus filhos e perderei o respeito de vocês.”
Lula chegou a se comparar a Jesus Cristo, ao afirmar que o filho de Maria e José foi condenado à morte sem provas. “Jesus Cristo foi condenado à morte sem dizer uma palavra, recém-nascido. E, se o José não corre, ele tinha sido morto. E olhe que não tinha empreiteira naquele tempo, não tinha Lava Jato”, disse. Logo em seguida, porém, o ex-presidente se corrigiu: “Eu sei que a imprensa vai dizer ‘Lula se compara a Jesus Cristo’. Longe disso”.
Com a voz que ficou embargada algumas vezes, o ex-presidente fez questão de destacar que  retomará as caravanas pelo Brasil, depois do Carnaval, mas conclamou o PT e os movimentos sociais a ajudá-lo no embate nas ruas. “Espero que a candidatura não dependa do Lula. Que vocês sejam capazes de fazê-la, mesmo se acontecer alguma coisa indesejável, e colocar o povo brasileiro em movimento”, insistiu.
JULGAMENTO POLÍTICO
O PT lançou a pré-candidatura de Lula à Presidência em reunião de sua Executiva como forma de mostrar que não aceitará o que chama de “julgamento político”. O partido vai recorrer da sentença do TRF-4, mas sabe que, como a decisão foi tomada por unanimidade pelos três desembargadores, a chance de reverter o quadro é remota.
O maior temor do PT, agora, é que Lula seja preso antes do registro da candidatura, que o partido pretende fazer em 15 de agosto, último dia do prazo estabelecido pela Lei Eleitoral. Ao pedir empenho no enfrentamento político, Lula ressalvou, porém, que ninguém deve manter ilusões se não reagir. “Dissemos que não ia ter golpe e teve, que não ia ter impeachment e teve. Eles se organizaram usando o aparelho de Estado. Não é preciso mais canhão”, afirmou.
A presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), conduziu a votação que aprovou o lançamento do petista. De braços erguidos e diante de um cartaz gigante com a inscrição “Em Defesa da Democracia e de Lula”, os militantes gritavam: “Brasil/Urgente/Lula presidente”.
“Dom Pedro criou o Dia do Fico e eu estou fazendo o Dia do Aceito. Eu aceito a indicação de pré-candidato à Presidência, mas não aceito que vocês me lancem para me proteger. A minha proteção é a minha inocência”, argumentou ele. Gleisi aproveitou para dizer que o partido irá com Lula até as últimas consequências. “Não queiram enxertar no PT essa história de Plano B. Nós não temos Plano B”, completou ela.
PLANO B
Apesar do discurso oficial, dirigentes avaliam, nos bastidores, que provavelmente Lula terá de ser substituído na chapa. Na lista dos cotados estão o ex-governador da Bahia Jaques Wagner e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad. Os dois compareceram ao ato de desagravo a Lula, que também contou com a participação da ex-presidente Dilma Rousseff, de governadores do PT, senadores, deputados e integrantes de movimentos sociais, como o MST.




Na sede da Central Única dos Trabalhadores (CUT), onde foi realizado o ato, Lula afirmou que não cometeu crime no caso do triplex do Guarujá. “Eles sabem que condenaram um inocente”, insistiu.
CARTEL
Em um discurso inflamado, o ex-presidente disse que o Judiciário, a imprensa e a elite formaram um “cartel” para destruir o PT e tirá-lo do jogo eleitoral. “Somente ontem eu compreendi o que é um cartel. Precisava até mandar para o Cade”, ironizou ele, em uma referência ao Conselho Administrativa de Defesa Econômica.
Ao lembrar que enfrenta outros processos, Lula voltou a pregar a reação dos militantes. “Ou vocês percebem que o que está sendo julgado é a forma que governamos o País e se organizam, ou o próximo passo será a tentativa de criminalizarem o PT, porque estão tentando dizer que o PT é uma organização criminosa”, afirmou o ex-presidente.
‘CADÊ A PROVA?’
A estratégia do PT, agora, é pregar a “desobediência civil” à decisão do TRF-4, sob o argumento de que Lula foi condenado sem provas. “Não é uma coisa simples você andar na rua e alguém gritar que você é ladrão. Isso é o que  mais coloca minha honra à flor da pele. Eu aceito ser chamado de corintiano, mas não posso aceitar que um canalha qualquer me chame de ladrão”, gritou Lula. “Vocês têm uma arma poderosa, que é cobrar prova. Ninguém pode ser condenado com base em “eu acho, eu penso, eu acredito” porque isso não vale”.
Em tom irônico, Lula citou até o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato no Paraná, que apresentou um PowerPoint, em uma entrevista, no qual o petista era apontado como personagem central no esquema de corrupção na Petrobrás.
“Dellagnol, na primeira denúncia, foi honesto. Ele disse: ‘não me peçam provas; eu tenho convicção'”, afirmou o ex-presidente, ao repetir que tanto a Polícia Federal como o Ministério Público nunca encontraram provas contra ele.
Lula também contou um episódio envolvendo o sítio de Atibaia, alvo de outra investigação da Lava Jato, para bater na tecla da perseguição contra ele. “Eu tenho uma cachorrinha chamada Mel. Uma jararaca a mordeu na chácara. Para eles, o fato de a cachorrinha ter sido mordida por uma jararaca é prova de que o sitio é meu. Foram interrogar até a veterinária”, disse o ex-presidente. “Depois perguntaram ‘por que Lula dorme na cama principal?’. Mal sabem eles que eu dormi na cama principal num palácio da Inglaterra, num palácio da Suécia, num palácio da Espanha.” (por Vera Rosa,Thaís Barcellos e André Ítalo Rocha, O Estado de S.Paulo)

 



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