Lula diz que Dilma Rousseff ‘traiu’ seu eleitorado

Em entrevista ao jornal espanhol El Mundo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a ex-presidente Dilma Rousseff ‘traiu’ seu eleitorado ao promover ajuste fiscal após vencer as eleições de 2014. Segundo Lula, esse foi um dos erros cometidos pela ex-presidente.
“O segundo erro veio quando a presidente (Dilma) anunciou o ajuste fiscal e traiu o eleitorado que a havia eleito em 2014, o eleitorado que havíamos prometido que manteríamos os gastos. Assim começamos a perder credibilidade”, afirmou Lula na entrevista publicada neste domingo (22).
A palavra traição gerou polêmica. O ex-presidente afirmou nesta segunda-feira que não usou essa expressão durante a entrevista. Procurado pela reportagem sobre o teor da entrevista, a assessoria do Instituto Lula negou que o ex-presidente tenha usado a palavra “traiu”.
O outro erro de Dilma, o primeiro, segundo o próprio Lula, foi ‘exagerar’ as políticas de exoneração fiscal para as grandes empresas. “Em 2014, saía mais dinheiro do que entrava”, afirmou o ex-presidente. “O ano de 2015 foi muito semelhante ao de 1999, quando Fernando Henrique Cardoso teve uma popularidade de 8% e o Brasil quebrou três vezes. Mas o presidente da Câmara era Michel Temer e ele o ajudou. Nós tivemos o Eduardo Cunha.”
Lula disse ainda que não se arrependeu de não ter se candidato à Presidência em 2014 e expressou o desejo de voltar à disputa ao Planalto em 2018 a despeito da condenação, em primeira instância, na Operação Lava Jato.
Veja a integra da entrevista do Ex-presidente Lula ao jornal EL MUNDO:
Quando ele deixou a presidência em 2010, o Brasil estava em pleno crescimento, 32 milhões de pessoas pobres subiram em aula, a Petrobras era um dos motores econômicos. O que aconteceu para tornar o país 180 graus?
Lula – O que aconteceu com nós é que jogamos fora a palavra mágica: credibilidade. Um conceito válido para a família, para o bairro, para o time de futebol. Quando o governador fala e as pessoas não acreditam nele, as coisas não acontecem.
Quando você perdeu essa credibilidade?
Lula – Até 2013, o país cresceu, teve pleno emprego, manteve políticas sociais, preparou a Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos, mas em junho realizaram-se demonstrações como 15M Espanha ou uma espécie de Primavera árabe brasileira.
Desde então, sociólogos e cientistas políticos analisam junho de 2013. Você entendeu?
Lula – Eu confesso que ainda não sei como interpretar o que aconteceu, porque naquele momento o presidente Dilma teve uma popularidade de 75%. As coisas aconteceram que escaparam do nosso controle, pois o gerenciamento fez os meios das mobilizações. As televisões chamaram as manifestações, vieram remover a telenovela da noite para dar a cobertura das pessoas na rua. Ao longo da história das mobilizações no Brasil, a mídia nunca se comportou dessa maneira.
As pessoas exigiram uma melhor educação, mais investimento em hospitais e menos gastos em grandes eventos …
Lula – Educação e saúde foram um dos melhores momentos. E é claro que as pessoas têm o direito de exigir mais, mas a situação atual é muito pior e ninguém sai para protestar, porque a mídia não incita.
Mas eles reconheceram os erros cometidos pelo governo de Dilma Rousseff?
Lula – Sim, é claro que nós falhamos. Nosso maior erro foi exagerar as políticas de exoneração de grandes empresas. O Estado parou de colecionar para retornar os empresários e em 2014 veio mais dinheiro do que entrou. Entre 2011 e 2014, 428 bilhões de reais (114 bilhões de euros) foram exonerados e quando Dilma tentou acabar com este auxílio, o Senado não o permitiu. O segundo erro ocorreu quando o presidente anunciou o ajuste fiscal e traiu o eleitorado que a elegeu em 2014, ao qual prometemos manter as despesas. Dessa forma, começamos a perder credibilidade. O ano de 2015 foi muito semelhante ao de 1999, quando Fernando Henrique Cardoso teve uma popularidade de 8% e o país quebrou três vezes. Mas naquela ocasião, o presidente da Câmara foi Michel Temer e ele o ajudou a governar. Nós tivemos Eduardo Cunha que foi encarregado de rejeitar todas as reformas propostas por Dilma. Foi quem puxou para foraum impeachment ilegítimo . Nós tivemos o inimigo em casa.
Você se arrepende de não ter realizado em 2014?
Lula – Não me arrependo porque sou principalmente leal à democracia e a Dilma Rousseff. Ela era a agente e tinha o direito de ser reeleito. Mas eu pensei nisso muitas vezes e eu sei que Dilma também. O que acontece é que eu não sou o tipo de pessoa que se arrepende, temos que esperar e quero ser presidente novamente para mostrar ao mundo que o Brasil pode trabalhar.
Como o futuro candidato do PT nas eleições de 2018. Qual é a fórmula dele para recuperar o país?
Lula – O Brasil deve ser governado novamente com a maioria em mente e não poucos, então a primeira coisa que eu pretendo aumentar é um referendo de revogação sobre muitas das medidas aprovadas por Michel Temer . É criminoso ter uma lei que limite a possibilidade de investimento do Estado por 20 anos. No Brasil, coisas básicas como saneamento, tratamento de água, habitação ainda faltam. Temos um potencial investimento em infra-estrutura que pode resolver grande parte da geração de emprego e recuperar a economia. O Brasil não depende dos EUA ou da China, mas em suas próprias decisões. Quando os pobres retornam ao orçamento do estado, o país crescerá novamente e recuperará a confiança internacional. O capital é covarde e só virá quando você sabe que pode ganhar.
A reação dos mercados ao governo de Temer foi mais positiva do que com os últimos anos de Rousseff.
Lula – Claro, eles pretendem privatizar o país. Você só tem que ver o que quer fazer com a Petrobras. O petróleo foi nosso passaporte para o futuro, se eles o vendem, nos deixam sem soberania. É uma pena que eles destruam nossa empresa.
Para muitos, o que destruiu foi a corrupção e as diversões milionárias de dinheiro que foram feitas através da empresa petrolífera.
Lula – Digamos que foi assim. Que prenda todos os corruptos, mas isso não quebra a empresa e acaba com o trabalho de milhares de pessoas.
Você pretende defender as eleições de 2018 e ter uma convicção de primeira instância de nove anos e seis meses de prisão por lavagem de dinheiro e corrupção passiva relacionada ao escândalo da Petrobras.
Lula – Eu me apresento aos meus 72 anos, porque há muitas pessoas que sabem como governar, mas não há quem saiba cuidar das pessoas mais necessitadas como eu. Eu conheço seus interiores, como eles vivem, o que eles precisam. Se eles acreditassem que uma convicção levaria a ideia de ser um candidato, eles conseguiram o efeito oposto. O julgamento ao qual estou sujeito é uma farsa. Nem a Polícia Federal nem o Ministério Público encontraram uma única prova para me cobrar, razão pela qual eu digo que a decisão do juiz Sérgio Moro é eminentemente política. Em um primeiro julgamento, disseram que ele tinha um apartamento na praia e que ele tinha dinheiro com a Petrobras. Quando entramos com um remédio, o mesmo juiz que me condenou mais tarde disse que nunca havia dito que o apartamento era meu e que era o dinheiro da Petrobras. Então, se não é meu, não há dinheiro da Petrobras, por que eles me condenam? A única resposta que tenho é que eles fazem isso porque são refém da imprensa. Hoje, no Brasil, a mídia tem mais poder do que o Ministério Público e, pela primeira vez, um juiz se comporta de acordo com a opinião pública. Eles encontraram dinheiro na casa de Aécio Neves, no governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, no ex-ministro Geddel Vieira Lima, mas em minha casa, nada. Eles foram checando contas em bancos de todo o mundo para encontrar algum desvio de dinheiro e nada. Mas amanhã, tarde e noite, a imprensa me destrói e se recusa a publicar que não há provas contra mim.
No entanto, seu homem da direita, Antonio Palocci, disse há algumas semanas ao juiz Moro que você fez um pacto de sangue com a Odebrecht, um dos principais construtores acusados ​​de desviar dinheiro da Petrobras.
Lula – A única verdade que Pallocci disse é que ele queria o benefício da lei. Uma acusação como esta, sob pressão, com a pessoa que declara presas, não pode ser aceita pelas instâncias superiores de Justiça. Você não pode prender um cidadão por três anos e oferecer-lhe liberdade ou redução de punição em troca de você dizer algo que você não conhece. Vários advogados me disseram que o Ministério Público diz aos clientes que a acusação só é válida se eles tiverem algo contra Lula. Primeiro fui tentado por um apartamento que não é meu e eles me condenaram. Agora, eu sou julgado por uma terra do Instituto Lula que não pertence a mim, então será para uma casa de campo que não é minha, então para algumas obras do estádio do Corinthians … Então todos os dias eles inventam algo, mas eu ainda lidero as pesquisas eleitorais. As pessoas confiam em mim porque sabem quem eu sou e o que eu fiz por eles. Tenho minha honra e minha honestidade de volta, e às 72 eu não tenho mais o direito de estar nervoso. Eles fazem o seu jogo e eu faço o meu. Eles me acusam pela imprensa e eu me defendo com as pessoas. É uma pena o que eles estão fazendo para mim e minha família. Todo esse processo acelerou a morte de minha esposa. Meus filhos são invadidos pela polícia e eles não acham nada, mas ninguém se desculpa.
Você se sente mais perto do populismo latino-americano ou da social-democracia européia?
Lula – O respeito pela social-democracia europeia é o exemplo do Estado-providência, a defesa dos direitos dos trabalhadores, mas no Brasil, construímos o nosso caminho, nem melhor nem pior. Aquele do populismo latino-americano parece bobo para mim. O que significa ser populista? Falar a linguagem das pessoas e defendê-la? Nunca me considerei um presidente populista, mas extremamente popular.
O Partido dos Trabalhadores afirmou que apoiou incondicionalmente o governo de Maduro, mas você ficou quieto.
Lula – Eu não dou apoio incondicional. Há muitas coisas que eu não concordo com Maduro, também acontece com presidentes de outros países. Eu defendo para a Venezuela o mesmo que para o Brasil e é que eu administro seus assuntos sem interferência externa. Não entendo por que a Europa está tão preocupada com Maduro, depois de tudo ele ter sido democraticamente eleito e os venezuelanos terão que resolver seus problemas entre si.
E o Trump?
Lula – Tenho muito cuidado ao analisar as pessoas. Posso dizer que estou surpreso que o presidente de um país do tamanho e da importância dos Estados Unidos esteja falando de tudo. Há coisas que um funcionário do estado deve dizer, uma secretária, talvez seja porque ele acabou de chegar e ainda há coisas para aprender. Mas você não pode governar o mundo pelo sopro do Twitter.
Qual a sua opinião sobre a situação na Catalunha?
Lula – Como deveria acontecer com você, a primeira coisa que vem à mente é como é complicado falar sobre esse assunto. Normalmente, as teses separatista acontecem nas regiões mais ricas, os pobres nunca querem se separar “, ele ri. Compreendo perfeitamente que o nacionalismo catalão tem uma longa história, mas prefiro uma Espanha unida. E talvez eu apenas me atrevesse a dar conselhos ao Rei, a quem eu conheço e tenho muito carinho, e é que em uma situação de tensão como a que vivem, ele não deveria tomar partido, seu papel é ser um mediador. É um papel mais simpatizante e aquele que corresponde a um rei.
Na semana passada, ele disse que Lula era mais do que uma pessoa, uma imagem assumida por milhões de pessoas. O que isso reflete?
Lula – O que eu queria dizer é que além da minha pessoa, Lula é uma ideia de que os pobres podem ter acesso a um bom trabalho, um salário digno, para entrar na universidade. Eu sempre digo que o melhor efeito do meu governo não foram as obras que fiz, mas para que ele descobrisse as pessoas que poderiam ser objeto da História.
Se você foi condenado em segunda instância e não pudesse representar eleições, o PT tem uma oportunidade sem Lula da Silva?
Lula – Espero poder me apresentar, mas ninguém é essencial. Existem milhares de lulas.

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