Hollywood em crise, após gafe escancarada no Oscar que consagrou ‘Moonlight’

Uma gafe sem precedentes no Oscar fez do Dolby Theatre palco de uma imagem carregada de simbolismo: a equipe do musical “La La Land”, composta majoritariamente por brancos, cedendo espaço para a de ‘Moonlight’, longa dirigido e protagonizado apenas por negros e o verdadeiro vencedor do prêmio de melhor filme.
A trapalhada no anúncio ofuscou a tentativa da Academia de se emendar após queixas de racismo, maso esvaziou o conteúdo político: ao premiar ‘Moonlight’, Hollywood também abraçou um drama de temática gay e mandou um recado claro a Trump, lembrado pelo apresentador Jimmy Kimmel e em discursos.
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A gafe do seculo no Oscar 2017
O duelo entre as duas produções escancara uma rivalidade entre opostos. A começar, tecnicamente: “La La Land”, de Damien Chazelle, custou US$ 30 milhões (cerca de R$ 93 milhões), ante o modesto US$ 1,5 milhão (R$ 4,6 milhões) de ‘Moonlight’, de Barry Jenkins -mais barato até do que produções brasileiras como “Pequeno Segredo”, de R$ 10 milhões.
E não só tecnicamente. “La La Land” é escapismo puro. É uma história de amor que levantou queixas de racismo por ter protagonistas brancos (Ryan Gosling e Emma Stone) num universo indissociável da cultura negra, o do jazz. Mais ironia: na trama, é o branco Sebastian (Gosling) quem luta por manter a pureza do estilo musical diante das investidas moderninhas do parceiro negro Keith (interpretado por John Legend).
Contra a beleza asséptica de “La La Land”, “Moonlight” traz a dureza das ruas de Miami na pele de um jovem negro, gay e pobre que tateia em busca de identidade enquanto lida com a mãe drogada, o amigo por quem nutre paixão e o traficante que lhe serve de enviesada referência paterna (Mahershala Ali, vencedor do prêmio de ator coadjuvante).
Ali ajudou a coroar essa noite pró-negros. Além dele, também levaram prêmios: Viola Davis,por “Um Limite Entre Nós”; Ezra Edelman, pelo documentário “O.J.: Made in America”; e Tarell Alvin McCraney e Barry Jenkins, pelo roteiro de “Moonlight”.
O filme de Jenkins não foi o primeiro dirigido por um negro a ganhar o Oscar principal. Em 2014, Steve McQueen rompeu a barreira com “12 Anos de Escravidão”, mas seu longa tange o racismo pelo viés desgastado -e até fetichista- do negro escravo, subjugado pelo branco. “Moonlight” vai além: as chagas do racismo exalam ainda que nenhum branco esteja em cena.
‘Moonlight’ também representa a primeira vitória de um drama gay na principal categoria do Oscar, reparando o que muitos encararam como injustiça, em 2006, quando “Brokeback Mountain” perdeu a estatueta para “Crash”.
Para Hollywood, que vê sua receita doméstica encolher com o fortalecimento dos serviços sob demanda, abrir-se para o multiculturalismo é questão de sobrevivência. Hoje em dia, superproduções não se bancam mais apenas com a bilheteria americana e são cada vez mais dependentes do êxito em mercado estrangeiros, como o chinês.
Ao negar o principal Oscar da noite ao musical de Damien Chazelle, a Academia leva a cidade dos sonhos a despertar para o fato de que 2017, primeiro ano do governo Trump, está mais para a aspereza de “Moonlight” do que para o colorido onírico de “La La Land”.
Ao site “Breitbart News”, o presidente afirmou que a cerimônia se preocupou tanto em ser política que cometeu a gafe do final. “Triste”, disse.

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