Geddel nega pressão, mas admite tratar questão pessoal com ex-ministro

Acusado pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero de tê-lo pressionado a mudar relatórios do Iphan para liberar uma obra onde tem apartamento na Bahia, o ministro de Governo, Geddel Vieira Lima, rebateu a guerra de versão sobre a saída do colega alegando ter aparecido “uma verdade entre muitas inverdades”.  Geddel confirmou à Coluna ter tratado do tema com Calero e admitiu ter comprado, em 2015, o apartamento no 23° andar, negando que tenha feito algum tipo de pressão. “Essa história está mal contada. Como justifica o pedido de demissão se ele foi prestigiado na posição dele. Ele poderia ter se sentido constrangido se tivesse sido forçado a tomar uma posição que não quisesse”, rebateu. A Folha publicou na edição de hoje uma entrevista em que Marcelo Calero acusa Geddel de pressão.
O ministro de Governo Geddel Vieira Lima, que passa a ser investigado pela Comissão de Ética Pública da Presidência, justificou não ter conhecimento dessa insatisfação ao dizer que uma das razões para a saída de Calero ser um relatório do Iphan pedindo o veto presidencial à lei aprovada pelo Senado na semana passada que transformou a vaquejada em patrimônio imaterial cultural do Brasil. Leia os principais pontos da entrevista:
O senhor foi acusado pelo ex-ministro Calero de pressioná-lo em relação ao Iphan.
Lamento profundamente essa declaração do Calero, com quem eu sempre tive uma relação afável e tranquila. Não tive nenhum desentendimento com Calero, nenhum bate boca com ele.  Ele diz uma verdade e muitas inverdades.
Quais seriam as inverdades?
As inverdades é que eu teria dito, por exemplo, que iria pedir a cabeça da presidente do Iphan, que eu poderia tratar com o presidente da República. Eu nunca tratei desse tema com o presidente da República. Nada, absolutamente nada.
E a verdade?
A verdade é que eu tratei do tema com ele sob a ótica de que ‘Calero, tem que tomar cuidado com isso. Esse assunto tá em discussão na Bahia há muito tempo. Está judicializado’. Já está na Justiça há muito tempo e isso termina gerando insegurança política para quem comprou unidade, isso termina gerando desemprego na cidade, mas sem nenhuma pressão devida. Tanto não há pressão que a posição ao final e ao cabo que prevaleceu foi a dele. Não estou entendendo e me surpreendo que venha isso agora. A posição que prevaleceu, apesar de eu ter uma visão diferente desse processo, mesmo ele judicializado, foi a dele. Os incorporadores vão buscar agora reparos tanto administrativos quanto na justiça. A posição dele prevaleceu. Que pressão é essa?
Mas o senhor tem esse apartamento?
Eu fiz em 2015, uma promessa de compra e venda de um apartamento lá.  Depois de morar 22 anos no meu antigo apartamento, eu pretendia mudar com minha família. Mas isso não me tira a legitimidade. Aliás, me dá legitimidade para mostrar que estava se fazendo era um equívoco.
O senhor tratou desse tema com Iphan?
Nunca tratei desse tema com Iphan. Não tive o privilégio de conhecer nem a ex-presidente nem a presidente.
Por que o senhor acha então que ele deixou o cargo, se não havia pressão?
Não tenho a menor ideia. Agora para para pensar uma coisa, a minha pressão, segundo ele, não deu resultado. A posição dele foi a que prevaleceu. Como justifica então ele pedir demissão se ele foi prestigiado na posição dele. Ele poderia ter se sentido constrangido se ele tivesse sido forçado a tomar uma posição que não quisesse. Tá mal contada essa história. Ele embargou a obra e manteve o relatório dele ainda que haja divergência. Isso está judicializado. Essas licenças foram dadas na Bahia, em 2014.
Ele pode ter se sentido incomodado por ter seguido uma posição contrária ao senhor. Não?
Primeiro, eu repilo pressão. Não houve pressão nenhuma. Houve conversa com um colega de ministério sobre um tema relevante há alguns dias atrás. Eu não encontrei com ele no Palácio do Alvorada. Ela vinha entrando e eu ia saindo. Tratei desse tema com naturalidade, inclusive, por telefone. Não tenho medo de grampo telefônico quando estou tratando de qualquer assunto. Falei com tranquilidade, com serenidade.  Inclusive, não entendo a partir de que momento ele achou que não era correto. Ele diz lá na entrevista dele que não era correto. Se ele achou incorreto, porque, naquele momento, lá atrás, não falou nada? Esse empreendimento teve todas as licenças dos órgãos municipais, estaduais e federais lá atrás, não é de agora.
O senhor nos deu ontem uma versão de que havia um impasse em torno da vaquejada…
Porque eu só sabia disso. Então, imaginei que fosse isso. Ele não tinha falado nada a respeito isso. O Iphan mandou uma proposta de veto ao presidente, ainda que tivesse sido avisado ao Calero de que não haveria veto. Não ia vetar. Mas isso eu te falei ontem porque eu não sabia de outra coisa, como eu poderia comentar?
E qual é o impasse em relação ao Iphan da Bahia?
Nenhum, até porque essas licenças não foram feitas pelo atual superintendente do Iphan. Isso vem lá de trás.  Vem do governo passado. O atual superintendente da Bahia, que é funcionário de carreira, foi indicação da bancada do DEM. Não tem nenhuma picuinha. Nunca tive problema nenhum com Calero, firmemente. Nenhum atrito, nenhum bate-boca. Ele sempre muito educado, vinha fazendo um bom trabalho no ministério, na minha avaliação.
Vocês chegaram a despachar sobre esse impasse em torno do seu apartamento na audiência passada?
Ele tinha audiências comigo muitas vezes. Teve  audiência para tratar de CPI da Lei Rouanet, teve audiência para tratar de nomeações, teve audiência para tratar de tudo. Não tratamos desse assunto na audiência passada, ao contrário do que ele falou. Não tratamos.
Então, por que o senhor acha que ele justificou com essa versão?
Não tenho a menor ideia.
Geddel o senho conversou com o presidente Michel Temer. O que ele falou disso?
Falei de manhã com Temer. Eu liguei para o presidente e ele disse: ‘apresente sua resposta com tranquilidade.  Não tem nada de problemático disso não, só o desgaste.
Temer pediu o cargo?
Não. Deixar cargo por isso, pelo amor de Deus. (Conteúdo Estadão)

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