A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens

A agência de noticias Reuters escolheu as melhores imagens dos últimos 12 meses e pediu aos seus fotógrafos para as comentar.
Do primeiro ano de Donald Trump na Casa Branca à fuga dos rohingyas da Birmânia, da crise na Venezuela ao incêndio mortífero na Grenfell Tower, passando pelo recuo do Estado Islâmico na Síria e no Iraque ou pela devastação deixada pelo furacão Harvey, foram muitos os acontecimentos do último ano captados pela lente dos fotógrafos da Reuters. Esta é a escolha de imagens feita pela agência britânica e o relato dos homens e mulheres que as tiraram, arriscando por vezes a vida e tendo de optar entre fotografar ou ajudar.
ano15 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Donald Trump
Carlos Barria cobre assuntos de política em Washington e luta diariamente com o controlo restrito das imagens que pode fazer. “Mas de vez em quando testemunhamos um momento que está fora do guião”, afirma o repórter. Foi o que aconteceu na manhã de 15 de setembro, quando foi chamado à Casa Branca. O presidente Donald Trump convidara Frank Giaccio, um rapaz de 11 anos que lhe escrevera uma carta a oferecer-se para cortar a relva da Casa Branca. E foi o que fez. “De repente, apareceu o presidente, com a sua habitual gravata vermelha demasiado comprida, como se fosse um episódio de The Apprentice. Começou a falar com Giaccio por cima do barulho do corta-relva. Giaccio estava tão concentrado que nem reparou e passou ao lado do presidente.” Foi preciso o pai do rapaz intervir para ele parar e ouvir Trump. “A imagem de Trump a gritar com uma criança que lhe está a cortar a relva pode ter muitas interpretações nos EUA polarizados de hoje. Mas para mim é só um rapaz que gosta do que está a fazer, ao ponto de parecer ignorar o presidente”, diz Barria. Foto Carlos Barria/REUTERS

ano01 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Reino Unido
Toby Melville ia a caminho da Ponte de Westminster para tirar fotos para um trabalho sobre o brexit quando viu pelo canto do olho alguém cair e bater no solo dez metros mais abaixo. “Achei que era um acidente terrível mas isolado”, recorda. “Chamei uma ambulância e corri para tentar arranjar ajuda […] Havia pessoas caídas ao longo da ponte […] Percebi que não era um acidente mas algo premeditado”, diz Melville. E acrescenta: “Não sabia se ainda havia perigo. Não sabia que um carro atingira as pessoas […] Quando os serviços de emergência chegaram comecei a tirar fotos.” O ataque de 22 de março na Ponte de Westminster fez quatro mortos e 50 feridos.Foi reivindicado pelo ISIS. Foto Toby Melville/REUTERS

ano02 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Supremacista Branca
Shannon Stapleton estava em Gainesville a 19 de outubro para cobrir o discurso que Richard Spence, líder da alt-right e supremacista branco, ia fazer na Universidade da Florida. No exterior havia centenas de manifestantes e no meio um homem de camisola branca com suásticas. “A atmosfera estava tensa. Ele tinha sido esmurrado e tinha sangue a escorrer-lhe pelo queixo. As pessoas chamavam-lhe nomes, alguns cuspiam-lhe em cima. Foi tudo surreal.Um homem negro surgiu ao lado dele e levou-o para longe da multidão”, explica Stapleton. Foto Shannon Stapleton/REUTERS

ano03 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Mediterrâneo
Darrin Zammit Lupi passou cinco semanas no navio da Migrant Offshore Aid Station no Mediterrâneo. “No fim de semana de Páscoa estávamos a 15 milhas da costa da Líbia”, conta. A 17 de abril, o fotógrafo ia a bordo de uma lancha rápida da organização quando se depararam com 134 subsarianos num bote. Enquanto a equipa de socorro lhes entregava coletes salva-vidas quando um dos migrantes perdeu o equilíbrio, arrastando vários outros “como peças de dominó”. “Apanhei toda a sequência mantendo o dedo no botão. Foi o caos. Ia fotografando enquanto os socorristas entravam em ação e alguns migrantes conseguiam subir para o nosso navio.” Enquanto gritava a pedir ajuda, Lupi garante ter pensado: “O trabalho deles é ajudar. O meu era documentar a dura realidade do que estava a acontecer.” Neste ano, mais de 170 mil migrantes chegaram à Europa via Mediterrâneo. 3081 morreram a tentar. Foto Darrin Zammit Lupi/REUTERS

ano04 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Furacão Harvey
Jonathan Bachman tinha acabado de chegar a Houston no Texas para cobrir o furacão Harvey quando, a 28 de agosto, se deparou com uma fila de residentes a caminhar até à área onde estavam os socorros. “Mudei de sítio para fotografá-los de forma a captar a magnitude da tempestade”, explica o repórter, afirmando: “Queria passar a ideia de que era uma fila sem fim de pessoas à procura de um sítio seguro e que isso ia durar dias.” O Harvey teve custos de 200 mil milhões de dólares. Foto Jonathan Bachman/REUTERS

ano05 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Dia de Raiva
Ammar Awad nasceu em Jerusalém e cobre os acontecimentos na cidade há 17 anos. Naquele 21 de julho, decretado Dia de Raiva pelos palestinianos em protesto contra a instalação pelas autoridades israelitas de detetores de metal na Esplanada das Mesquitas. “Sabia que Ras al-Amud, do outro lado do vale, frente à Cidade Velha, seria o melhor sítio” para fotografar, explica. Foi dali que ouviu as explosões no final da oração de sexta-feira. “Muitos fiéis muçulmanos que tinham estado a rezar começaram a correr. Outros acabaram as orações enquanto a cena iam ficando caótica (…) Tirei 20 fotos enquanto uma botija de gás lacrimogéneo era lançada para a multidão.A luz do projétil iluminou a cena de forma pouco natural. Dezenas de homens afastaram-se do som ensurdecedor. Mandei diretamente a foto da minha máquina para a redação (…) Tive a sensação de que seria a foto do dia.” Foto Ammar Awad/REUTERS

ano06 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Protesto em Nairobi
Baz Ratner estava a fazer a cobertura de um protesto da oposição em Nairobi, a 13 de outubro, quando ouviu o barulho do gás lacrimogéneo a ser lançado pela polícia. Parou a mota onde seguia e viu que uma lata de gás entrava num carro, cujo motorista estava a tentar respirar pela janela aberta. “Não reconheci o homem mas mais tarde vim a saber que era o deputado Caleb Amisi Luyai”, conta. Foto Baz Ratner/REUTERS

ano07 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Terremoto México
Carlos Jasso tirou esta fotografia de equipas de emergência, soldados, voluntários e residentes a tentar tirar um corpo dos destroços um dia depois do sismo de 20 de setembro no México. “A atmosfera era extremamente emocional porque todos estavam em choque com a sua própria experiência mas todos queriam ajudar a encontrar Sobreviventes”, conta. E garante: “A minha responsabilidade como fotógrafo é mostrar o que está a acontecer e sinto que esta imagem mostra o esforço, a esperança, a tristeza e a dor de uma comunidade após uma catástrofe natural.” O sismo fez 370 mortos e mais de 6000 feridos. Foto Carlos Jasso/REUTERS

ano08 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Tensão no Quênia
Na manhã seguinte às eleições de 8 de agosto no Quênia, o bairro de lata de Mathare em Nairobi acordou de uma noite de confrontos entre polícia e oposição. “Dois manifestantes foram baleados. Por causa dos assaltantes era perigoso entrar na viela, onde havia feridos, crianças aos gritos e mulheres a chorar. Um dos mortos era Bernard Okoth Odoyo, 25 anos, cuja tia gritava descontroladamente junto ao corpo”, conta Thomas Mukoya. A 28 de novembro, Uhuru Kenyatta tomou posse como presidente para um segundo mandato. O rival Raila Odinga não aceita os resultados e promete também tomar posse. Prevista para 12 de dezembro, esta foi adiada. Foto Thomas Mukoya/REUTERS

ano10 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Mosul no Iraque
“Ambos a gritar de terror, um pai e a filha que ele aperta no colo fogem pelas ruas em ruínas de Wadi Hajar, transformada em palco da luta entre combatentes do Estado Islâmico e forças especiais iraquianas”, recorda Goran Tomasevic. O fotógrafo documentou a fuga, a 4 de março, dos habitantes desta zona de Mosul, no Iraque. Quando chegavam às linhas das forças governamentais, os homens eram obrigados a tirar a roupa e mostrar que não tinham cintos de explosivos. Mas não os que carregavam crianças. “Este pai estava tão focado nele próprio, tão em pânico. Era óbvio pela camisola de alças e pela criança que carregava que não pertencia ao Estado Islâmico”, relata Tomasevic. Em julho, Bagdad anunciou que Mossul fora libertada dos jihadistas. Foto Goran Tomasevic/REUTERS

ano11 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Opositores de Putin na Rússia
“Esta foto foi tirada durante os protestos no centro de Moscovo, organizados pelo opositor Alexey Navalny”, explica Maxim Shemetov. O repórter da Reuters estava na Praça Pushkinskaya a 26 de março, no meio dos gritos e das bandeiras dos manifestantes antipresidente Vladimir Putin quando viu a polícia levar um homem preso pelos braços e pelas pernas. “Ele estava a gritar e a sua cabeça estava mesmo no meio das botas dos agentes. Disparei várias vezes. Mas não olhei para a máquina. Só pensei ‘que a foto seja boa, que seja boa’. No dia seguinte estava na primeira página do The New York Times.” Navalny foi proibido pelo Supremo Tribunal de se candidatar às presidenciais de 2018. Foto Maxim Shemetov/REUTERS

ano12 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Os rohingyas
Damir Sagolj lembra-se bem do dia 28 de setembro. “Era um dia de chuva e grandes ondas. Eu estava no Sul do Bangladesh a cobrir a chegada dos rohingyas em barquinhos improvisados após a perigosa travessia desde a Birmânia”, conta. “Logo depois do pôr do sol, soube que um barco com 80 rohingyas a bordo tinha naufragado perto do meu hotel. Havia vários mortos. Cheguei à praia em dez minutos”, explica. O que esperava Sagolj eram 15 corpos, cobertos com plásticos coloridos. “Lalu Miya, um dos sobreviventes, estava a identificar a mulher e o filho de 4 anos […] A maioria das vítimas eram crianças.” Mais de um milhão de rohingya, minoria muçulmana, fugiram das perseguições na Birmânia para o Bangladesh, arriscando a vida no mar. Foto Damir Sagolj /REUTERS

ano13 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
O incêndio da Grenfell Tower
Eram três e meia da madrugada daquele 14 de junho quando Toby Melville recebeu uma chamada do seu editor. “Não é terrorismo”, foi a primeira coisa que este lhe disse. Aliviado, Melville seguiu de carro até à torre que o editor lhe dissera estar a arder. “Ainda estava escuro às 04.00 quando lá cheguei. Podia ver a torre em chamas. Fiquei em choque. Devia haver montes de pessoas presas lá dentro porque o fogo começara à 01.00, a pior hora possível com tanta gente em casa e possivelmente a dormir”, recorda. E explica que “a foto tem uma igreja em fundo. Tirei grandes planos do edifício no que noutra situação teria sido um belo nascer do sol de verão em Londres. O incêndio da Grenfell Tower fez 71 mortos. Foto Toby Melville/REUTERS

ano14 A foto e a sua história: 2017 em 14 imagens
Crise na Venezuela
“Vi um homem a correr à minha frente por entre um grupo de manifestantes, muitos de capuz e cara tapada, que o perseguiam. Decidi segui-lo. Cem metros mais à frente, apanharam-no e rodearam–no. Quando me aproximei alguém já o tinha regado com gasolina e lhe tinha deitado fogo”, recorda Marco Bello. Segundo o governo da Venezuela, explica o repórter, o homem seria acusado de ser chavista, um fiel do ex-presidente Hugo Chávez. Mas Bello garante que apenas ouviu os manifestantes acusá-lo de ter roubado uma mulher. O homem chamava-se Orlando Fugera, tinha 22 anos, e morreu duas semanas depois daquele 20 de maio . Foi apenas uma das vítimas dos violentos protestos contra o presidente Nicolás Maduro. Foto Marco Bello/REUTERS

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