O filme sobre o amor entre mulher e uma criatura aquática abre Festival do Rio

Da última vez que os americanos foram dormir com promessas de um país melhor, no início dos anos 1960, a nação acordou em meio a convulsões sociais, à tragédia da Guerra do Vietnã e a uma economia combalida. ‘A forma da água’, nova fantasia do diretor mexicano Guillermo del Toro, escolhida para abrir o Festival do Rio, na noite desta quinta, no Cine Odeon, se passa naquele momento de transição, quando o sentimento de otimismo que chegou à Casa Branca com o presidente John F. Kennedy morreu junto com ele no atentado de novembro de 1963. Logo após a gala de abertura, para convidados, o filme tem sessão aberta ao público, às 23h59m, no mesmo Odeon.
— Agora, quando reeditam a promessa de um futuro melhor, com slogans como “Let’s make America great again” (“Vamos fazer a América grandiosa de novo”), os americanos sonham com aquele período de sua História. Mas que só valia para quem era branco, anglo-saxão e protestante. Se você tivesse qualquer outra origem, as conquistas não seriam tão maravilhosas. É o que estamos vendo nos Estados Unidos de Donald Trump  comparou o cineasta durante o Festival de Veneza, no mês passado, de onde saiu com o Leão de Ouro. — Hoje, como naquela época, enfrentamos problemas como racismo e diferenças de classe.

Tal como os filmes de ficção científica e fantasia dos anos 1950 e 60, era de ouro do gênero, “A forma da água” recorre a realidades alternativas e elementos fantásticos para tocar em problemas do presente. A trama é centrada na figura de Elisa (Sally Hawkins, Urso de Prata em Berlim por seu desempenho em “Simplesmente feliz”, de Mike Leigh), faxineira de um laboratório de segurança máxima, que é muda e se apaixona perdidamente por uma criatura aquática (Doug Jones) encontrada em um rio amazônico. Os dois se reconhecem na solidão e nas diferenças que fazem deles seres marginalizados.
As noções de alteridade exploradas no filme, que chega ao circuito brasileiro em janeiro, se estendem a outros personagens ao redor de Elisa, como Zelda (Octavia Spencer), a amiga negra, ou a seu vizinho (secretamente) gay (Richard Jenkins). É da união entre esses tipos segregados por racismo, sexismo e (por que não?) xenofobia que nascem planos para tirar o humanoide com escamas e cara de peixe das garras de Strickland (Michael Shannon), o implacável agente do governo que o capturou e agora quer entregá-lo à ciência.
“A criatura representa algo que pode ser interpretado como divino, ou como presença desestabilizadora, dependendo de como você a enxerga. Sou mexicano, vivo parte do tempo nos EUA e sei o que é ser visto como ‘o outro'” explicou o autor de “O labirinto do fauno” (2006), fantasia ambientada em tempos na sombria Espanha do pós-Segunda Guerra, vencedora dos Oscars de direção de arte, fotografia e maquiagem. — Para Strickland, Eliza, Zelda e a criatura são invisíveis. Ele não enxerga nenhuma dessas pessoas por causa de sua enorme arrogância.
‘A fantasia é um gênero muito político, e o primeiro ato político é escolher o amor, e não o medo. Hoje em dia, o medo é usado de forma penetrante e persuasiva’
GUILLERMO DEL TORO Diretor do filme
Além de funcionar como encantadora metáfora para nossos dias, “A forma da água” também brinca com referências a alguns dos gêneros mais populares de Hollywood musical, drama romântico, fantasia, filme B dos anos 1950. Del Toro fez uma versão menos pudica do clássico da Disney “A Bela e a Fera”. Os dois amantes chegam a consumar a relação, recriando o clima de terror e suspense de “O monstro da lagoa negra” (1954), cultuado filme de Jack Arnold sobre um monstro que arrasta as guelras para os lados da noiva de um dos expedicionários que o descobriram.
Para o diretor, “A forma da água” é um filme “apaixonado pelo amor e pelo cinema”:
— A fantasia é um gênero muito político, e o primeiro ato político é escolher o amor, e não o medo. Hoje em dia, o medo é usado de forma penetrante e persuasiva. Dois aspectos sobressaem nas adaptação de “A Bela e a Fera”, uma delas é a versão platônica, a outra é a perversa e aterradora. Não me interessam, porque ambas mentem, e a vida é mais divertida do que isso. Queria mostrar Elisa como uma mulher por inteiro, que se masturba e prepara o café da manhã ao mesmo tempo, e que transa com a fera também.
NO ESQUENTA PARA O OSCAR
Del Toro entrou para a História como o primeiro mexicano a ganhar o prêmio máximo em Veneza, honraria que dedicou a “todo cineasta latino- americano que sonha fazer algo dentro do gênero fantasia, porque isso pode ser feito”. A efusiva recepção na mostra italiana colocou “A forma da água” entre os títulos que darão o que falar na temporada de prêmios que culmina com o Oscar, em março. A vitória do filme em Veneza representa uma conquista para o gênero, considerado menor nesse tipo de contenda, mas dotado de “grande carga política e artística”, segundo o diretor.
“A fé costuma nascer em momentos de desespero. Pensamos em contos de fada como histórias para crianças. “João e Maria”, por exemplo: seus pais deixaram os filhos para morrer na floresta porque não tinham como alimentá-los” observou o diretor de 52 anos, ao discorrer sobre o tipo de história que o fascina. — No caso de “A forma da água”, havia esse conto de fadas sobre um pescador e um peixe, que eu amo, e pensei que poderia criar uma variação. Brinco com algumas dessas ideias no filme que, para mim, é mais sobre imagens e emoções do que palavras. Até brinco dizendo que ele é um filme francês. Mas é um conto de fadas.

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