BNDES pagou a mais por ações da JBS para compra de frigoríficos nos EUA

Auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União) concluiu que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) pagou indevidamente 20% a mais por ações da JBS na operação para apoiar a compra do frigorífico National Beef Packing e da divisão de carnes da Smithfield Foods, ambos nos Estados Unidos.
O relatório sobre o caso, obtido pelo jornal Folha de S.Paulo, aponta “dano ao erário” de ao menos R$ 303 milhões no negócio, feito em 2008. O julgamento do processo está previsto para esta quarta-feira (18).
Conforme a investigação do tribunal, o banco teve uma perda de R$ 285,6 milhões ao adquirir a participação na empresa dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Além disso, deixou de obter R$ 18,3 milhões em dividendos, pois poderia ter comprado um lote maior de ações, pagando o “preço justo”. Os valores estão atualizados a julho.
O relatório foi concluído no fim de setembro e distribuído na segunda-feira (16) aos ministros do TCU. A investigação propõe que a corte responsabilize Joesley, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e o empresário Victor Garcia Sandri, apontado como amigo do petista, pelo suposto prejuízo.
O relator do caso, ministro Augusto Sherman, não havia distribuído seu voto a respeito até a noite de terça (17).
Os auditores concluíram, com base na delação da JBS, que Joesley, Mantega e Sandri se associaram de forma criminosa para conceder vantagens à empresa.
Em sua delação, Joesley afirmou ter pago propinas a Mantega, por meio de Sandri, para conseguir aportes bilionários do BNDES, mas nega que as transações tenham gerado perdas à instituição.
A auditoria também sugere a responsabilização do ex-presidente do banco, Luciano Coutinho, além de outros ex-dirigentes da instituição, por atuarem de forma “negligente” e “não diligente” ao analisar e aprovar o negócio.
NEGÓCIO
O BNDESPar braço do banco para a aquisição de participações investiu o equivalente a R$ 2,6 bilhões, em valores atuais, para adquirir ações da JBS. O aporte visou capitalizar o grupo para a compra das concorrentes. Com a operação, o banco passou a ser dono de uma fatia maior da empresa.
O negócio fez parte da política de “campeões nacionais” dos governos do PT. Segundo o TCU, com base em dados do próprio BNDES, entre 2005 e 2014, o banco repassou mais de R$ 10 bilhões para a JBS.
Segundo a auditoria, a operação para aquisição das empresas foi aprovada em tempo “exíguo”, com base em pareceres “precários”, que levavam em conta principalmente informações da JBS e não pesavam adequadamente riscos e vantagens.
O BNDES aceitou pagar R$ 7,07 por ação, ao tirar a média do valor negociado em bolsa nos 120 pregões anteriores à data do negócio. O critério foi prejudicial ao banco.
O padrão do BNDES é fazer a média de 30, 60 ou 90 pregões. Na ocasião, as ações da JBS estavam em queda. Quanto mais dilatado o prazo, maior seria o preço final da ação.
A auditoria diz que o cálculo da perda é conservador, pois considerou a média de 90 pregões para achar o “preço justo” da ação (R$ 5,90).
Se fizesse a média de 30 ou 60 pregões, o rombo no negócio, atualizado, chegaria a R$ 728,3 milhões.
A compra da National Beef não se concretizou, pois autoridades americanas antitruste levantaram barreiras ao negócio. Para o tribunal, com isso, a JBS teve outro favorecimento: ficar com recursos do banco em caixa, a custo zero. “Não é objetivo social do BNDES prover caixa gratuito para empresas privadas”, diz trecho do relatório.
A auditoria ainda aponta “desvio de finalidade”, já que o recurso foi usada depois na compra de “empresa estranha” à operação –a australiana Tasman. O TCU sustenta que o BNDES não comprovou os benefícios da operação.
O órgão propõe que Batista, Mantega, Sandri, Coutinho e demais implicados se justifiquem ou sejam obrigados a pagar pelo prejuízo.
O TCU avalia quatro grandes negócios do BNDES com a JBS. Em julho, havia indicado perdas de R$ 126 milhões na compra Swift, em 2007.(Folha)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

SiteLock