Papa pede à Igreja que ‘saia da zona de conforto e promova reconciliação’

Diante de 1 milhão de fiéis reunidos em Medellín, o Papa Francisco pediu neste sábado à Igreja que se renove, deixe a zona de conforto e promova a reconciliação em países como a Colômbia, que tentam superar um conflito armado sangrento de cinco décadas.
“Como Jesus ‘chacoalhava’ os doutores da lei para que saíssem da inércia, agora também a Igreja é ‘chacoalhada’ pelo Espírito para que deixe sua zona de conforto e seus apegos. A renovação não nos deve causar medo”, disse o pontífice durante a missa em Medellín, antiga capital do narcotráfico.
“Na Colômbia, há várias situações que reclamam dos discípulos o estilo de vida de Jesus, principalmente o amor convertido em feitos de não violência, reconciliação e paz”, assinalou.
Francisco, que oficiou hoje sua terceira homilia na Colômbia, pediu aos curas e padres que se envolvam, “embora, para alguns, isto pareça se sujar ou se manchar”.
“A Igreja na Colômbia está convocada a se empenhar com mais ousadia na formação de discípulos missionários”, assinalou o Papa, de 80 anos.
“Nos é pedido crescer em ousadia, em uma coragem evangélica que brota do saber que são muitos os que têm fome, fome de Deus, fome de dignidade, porque foram despojados”.
A multidão respondeu com aplausos à pregação do primeiro papa jesuíta e latino-americano.
A visita a Medellín tem um significado especial para o papa, porque foi nesta cidade onde a hierarquia católica da América Latina se comprometeu, em 1968, com a chamada “opção preferencial pelos pobres”.
Em um encontro com padres e bispos, Francisco pediu aos membros da Igreja Católica que se abstenham de lucrar e obter benefícios materiais com seu exercício religioso.
“Não podemos nos aproveitar da nossa condição religiosa e da bondade do nosso povo para ser servidos e obter benefícios materiais”, disse o pontífice.
“As vocações de especial consagração morrem quando se quer nutrir de honras, quando estão destinadas à busca de uma tranquilidade pessoal, de uma promoção social, quando a motivação é ‘subir de categoria’, se apegar aos interesses materiais, chegar, inclusive, à torpeza do afã do lucro”.
O encontro reuniu cerca de 12 mil religiosos na arena La Macarena, onde em fevereiro de 1991 uma bomba instalada por ordem do narcotraficante Pablo Escobar deixou dezenas de mortos e feridos.
Neste local simbólico do terror provocado pelo narcotráfico, o papa recordou a “juventude inquieta tantas vezes enganada, destruída pelos matadores das drogas”.
“Os convido a recordar, a acompanhar este cortejo de luto, a pedir perdão para os que destruíram as ilusões dos jovens (…), a pedir que acabe esta derrota da humanidade jovem”.
Francisco também aproveitou sua passagem por Medellín para reforçar seu apelo ao clero na Colômbia para que apoie a reconciliação após o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o diálogo em curso com o Exército de Libertação Nacional (ELN), última guerrilha ativa no país.
Na quarta-feira, o papa recordou aos bispos que não são “políticos”, e sim pastores, em referência às críticas da Igreja local ao pacto com os rebeldes.
Com dois milhões de habitantes, Medellín não é apenas uma cidade moderna e de vocação católica que tenta superar anos de violência do narcotráfico. É também uma das que mais rejeita a política de paz de Santos.
O presidente enfrenta a oposição sem trégua de seu antecessor, Álvaro Uribe, um líder de direita muito popular na Colômbia que fracassou em sua tentativa de derrotar militarmente as Farc, apesar dos duros golpes que impôs aos rebeldes.
Agora Uribe acusa Santos, seu ex-ministro da Defesa, de entregar o país aos rebeldes.
Ausente nas duas missas anteriores, Uribe assistiu ao papa em Medellín como “mais um peregrino”, como declarou à imprensa.
Francisco tem apoiado claramente os esforços de paz de Santos, mas também exige “verdade e justiça” para as vítimas do conflito, com cujos representantes se reuniu na sexta-feira, em Villavicencio.
Como partido legal, as Farc se submeterão a uma justiça especial, que prevê que os responsáveis por crimes atrozes, incluindo agentes do Estado, não serão presos caso confessem tais crimes, indenizem as vítimas e prometam jamais exercer a violência.
Em sua visita à Colômbia, que termina neste domingo em Cartagena, Francisco insiste em sua mensagem de paz e reconciliação, no momento em que o país está em vias de encerrar o último conflito armado das Américas, que deixou mais de 7 milhões de vítimas, entre mortos, desaparecidos e deslocados, em mais de meio século.(AFP)

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